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A RECICLAGEM QUÍMICA COMEÇA A CONFIGURAR UM SONHO POSSÍVEL

 

 

Fonte: Plásticos em Revista

Renovar também é inovar

A reciclagem química começa a configurar um sonho possível

A reciclagem química cruza o estágio do copo meio cheio meio vazio, inescapável para qualquer tecnologia de vanguarda. Para uma corrente, trata-se de uma promessa, para outra, uma realidade a cada dia mais palpável para quem tem olhos para ver.

Um catalisador desta última ala é a inglesa Plastic Energy, cujo domínio da reciclagem química de poliolefinas e poliestireno já é comprovado por duas fábricas comerciais na Europa e uma penca de projetos acordados com petroquímicas do naipe da Petronas e Sabic.

Outra mostra da proeminência alcançada em uma década pela Plastic Energy foi a eleição do seu CEO, Carlos Monreal, para a presidência da Associação Europeia de Reciclagem Química, constituída em janeiro passado. Nesta entrevista, ele desenha perspectivas iniciais para o novo processo de recuperação de resinas e os planos para seu mandato na entidade sediada na Bélgica.

 

A maturação da economia circular tende a tornar corriqueira a figura de petroquímicas operando suas unidades de reciclagem química como um negócio complementar?

Carlos Monreal  – A reciclagem química requer conhecimento e colaboração com a indústria de gerenciamento do refugo e a petroquímica. No momento, a colaboração transcorre no âmbito de recicladores pela rota química, mas o desenvolvimento do setor e a expansão de sua solução exige maior envolvimento técnico e financeiro das companhias petroquímicas. De fato, a reciclagem química constitui para elas um negócio complementar e uma relevante fonte alternativa de matéria-prima reciclada para seus crackers. Daí porque o setor petroquímico se envolverá em atividades de reciclagem química, mas não de modo uniforme. Poderão atuar através de joint ventures ou licenciamento de tecnologia ou mediante apoio financeiro, suporte no processo construtivo ou com estudos de viabilidade do projeto, por exemplo.

 

Poderia explicar a infraestrutura básica para a operação regular de uma unidade de reciclagem química de escala comercial?

Carlos Monreal – Para o desenvolvimento da reciclagem química pela minha empresa, Plastic Energy, é essencial contar com acordos de longo prazo para assegurar a matéria-prima e a companhia petroquímica comprometida a adquirir a futura produção do polímero recuperado. Embora este suprimento possa exigir ajustes no processo para o trabalho com o reciclado químico preencher as especificações operacionais dos crackers, é uma questão de testes e adaptações internas efetuadas por nós e a petroquímica compradora do nosso produto. Já nos certificamos da viabilidade desse sistema ao colocá-lo em prática com vários parceiros.
No entanto, o elemento mais desafiador da operação de reciclagem química é a matéria-prima, dependente da infraestrutura e da qualidade da coleta, segregação e separação, etapas que diferem conforme as regiões ou países. Podemos, por exemplo, lidar com matéria-prima constituída de plásticos misturados e acusando contaminação em algumas especificações. Mas se não houver segregação prévia e uma separação com limitações, a contaminação alimentícia e o índice de umidade serão demasiado elevados para o nosso manuseio. Desse modo, é fundamental que, a montante da planta de reciclagem química, se disponha de uma eficiente instalação de recuperação de resíduos pós-consumo, para nos prover não só da matéria-prima necessária, mas do tipo correto para ser submetido ao processo químico.

 

No cenário atual, qual a envergadura aceitável de uma unidade de reciclagem química de escala comercial?

Carlos Monreal – Embora seja possível estimar o investimento numa planta de 200.000 t/a, nossa experiência demonstra que, embora o ganho de escala seja relevante, uma unidade com esta capacidade resultaria superdimensionada em termos logísticos – a gestão de cerca de 570 t/dia de embalagens flexíveis é complicada – e em termos de impacto ambiental – o transporte de caminhões dessa quantidade de refugo através de um país ou região para um ponto central.

Na atual conjuntura, a capacidade das plantas de reciclagem química que a Plastic Energy desenvolve varia de 20.000 a 25.000 t/a. Podemos elevar este potencial e ainda torná-lo administrável. Por ora, porém, as capacidades com que trabalhamos são a referência de alta produção na reciclagem química.

 

Qual apelo de rentabilidade tem o investimento numa planta de reciclagem química num mercado global cronicamente dominado por superoferta e preços depreciados de poliolefinas virgens?

Carlos Monreal – Estamos criando uma nova indústria, voltada à reciclagem de plásticos que, tradicionalmente, não têm condições de serem recuperados. Ao mesmo tempo, estamos criando um mercado único de material reciclado com qualidade de virgem que pode ser integrado a embalagens de alimentos. A reciclagem química pode substituir a rota do petróleo virgem provendo uma solução para o desafio do resíduo plástico pós-consumo. A demanda pelo reciclado químico está estourando, em linha com o aumento cobrado da reciclabilidade das embalagens e de teores de reciclado na sua composição. Portanto, o apelo do lucro na reciclagem química é criar um material recuperado com a qualidade da resina de primeiro uso – algo novo e, por ora, de oferta muito aquém da demanda explosiva, o que converge para uma remuneração premium.

 

Reengenharia a todo vapor

O processo de conversão térmica anaeróbica (TAC) patenteado pela Plastic Energy começa com o recebimento do refugo de unidades municipais de coleta e recicladoras mecânicas. O resíduo (poliolefinas e poliestireno pós-consumo) passa por pré-tratamento removedor de componentes (metais, p.ex) para atender aos padrões de qualidade requeridos para suprir a planta de reciclagem química. O refugo pré-tratado é aquecido na ausência de oxigênio até se fundir e as moléculas poliméricas se rompem para formar vapor de hidrocarboneto ricamente saturado. Os gases condensáveis são convertidos em hidrocarbonetos, e os não condensáveis são coletados separadamente e entram em combustão para processar energia. Colunas de destilação atmosférica recebem o vapor de hidrocarbonetos e, conforme os pesos moleculares, separam-se do vapor o diesel cru, óleo leve e componentes de gás sintético. Nafta e diesel são estocados e vendidos para petroquímicas efetuarem a reconversão em resina virgem, óleo e combustíveis de transporte. O gás sintético é utilizado para alimentar a planta de reciclagem química.

 

Como a tecnologia da Plastic Energy se diferencia dos sistemas concorrentes na reciclagem química?

Carlos Monreal – À margem de muitos competidores ainda em estágio de laboratório e em escalas piloto, a equipe da Plastic Energy acumula bagagem de 10 anos no desenvolvimento de sua reciclagem química pautada por tecnologia térmica anaeróbica (TAC) sem similar no mercado. Na mesma trilha, contamos com três anos de experiência operacional, fabril e comercial nessas plantas. A posição de precursora no gênero da Plastic Energy não pode ser contestada: somos a única companhia no mundo que controla e opera duas fábricas de porte industrial na Espanha, tendo vendido milhões de litros de TACOIL com sua tecnologia patenteada. Além dessas provas, nosso domínio da tecnologia nos qualifica para produzir em alto desempenho com estabilidade, o que depende de alto conhecimento da matéria-prima no início do processo e das especificações da petroquímica ao final. Os acordos firmados com diversas petroquímicas gigantescas e o interesse gerado por nossa atuação são outras evidências de que nossa performance em estabilidade e qualidade casam com as exigências do mercado para dotar plásticos recuperados das suas características quando novos.

 

Quais os seus planos como primeiro presidente da Associação Europeia de Reciclagem Química (Chemical Recycling Europe/ ChemRecEurope)?

Carlos Monreal – A entidade foi estabelecida este ano e representa o interesse da indústria europeia de reciclagem química perante a opinião pública e instituições do continente. Nós nos empenhamos, em especial, em criar uma estrutura de apoio politico para explorar a pleno o potencial das tecnologias do setor e o desdobramento do suporte dado às metas e alvos da União Europeia (UE). Isso envolve um bocado de advocacia e educação relacionadas à reciclagem química, algumas tarefas de cunho técnico e ações de colaboração com outras associações representando a cadeia de valor. A ChemRecEurope também participa e é signatária da Aliança Circular de Plásticos (Circular Plastics Alliance/CPA), movimento que agrupa órgãos públicos e acionistas privados na cadeia de valor dos plásticos para promover ações voluntárias e compromissos para incrementar a reciclagem do material, em linha com a meta da UE de assegurar que 10 milhões de toneladas de plásticos reciclados serão transformadas em 2025 em artefatos pelo conjunto dos países membros. Também estamos participando de uma coalisão de associações da UE que integram a cadeia de valor para criar o mais claro posicionamento sobre reciclagem química. Temos pela frente um bocado de trabalho em políticas vinculadas á reciclagem química e prosseguiremos nos esforçando para esclarecer e oficializar esta indústria e sua solução.

Fonte: Plásticos em Revista

 

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